25 de novembro de 2012

Um poema de Álvaro de Campos


«Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles...
Domingo...
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo. —
Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Subtil para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo,
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!»

Alvaro de Campos, Poesias

1 comentário:

Poeta Zarolho disse...

“Revolução em verso”

Dum poema perfeito
Nasce bonita canção
Dum poema desfeito
Estilhaçada emoção

Um poema sem jeito
Não merece distinção
Um poema escorreito
Não busca a variação

Já o poema mordaz
Faz aumentar o tom
Desta contestação

Que a realidade traz
Onde ecoa alto o som
Do poema revolução.