19 de abril de 2013

Dizia Thomas Mann

Eu não teria podido [aí] viver e trabalhar. Teria sido, para mim, um verdadeiro envenenamento, se não tivesse podido, de tempos a tempos, «lavar o meu coração», como dizem os antigos, se não tivesse podido exprimir, sem reticências, o meu nojo por esses discursos miseráveis, que ribombam pelo meu país, e pelos actos ainda mais miseráveis que nele se cometem. Com ou sem razão, o meu nome está ligado, para o mundo, à noção de uma Alemanha que ama e que honra. Vi-me, pois, na obrigação de denunciar abertamente as mutilações selvagens que infligiram a essa Alemanha. E essa obrigação perturbava todos os meus sonhos de artista, aos quais eu me teria tão voluntariamente abandonado. Mas a essa obrigação, eu não podia subtrair-me, porque me foi sempre permitido exprimir-me, libertar-me pela linguagem. A vida não se acha, para mim, realizada, a não ser nessa constante criação da linguagem que purifica a emoção e a conserva.

Pois também eu começo a sentir a mutilação de palavras nobres. Todas as palavras do dicionário que usamos estão ao serviço no mal. É assim que sinto o discurso político!

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