3 de julho de 2013

A Rã e o Escorpião de Esopo

«Parado ao sol, o escorpião olhava ao redor da montanha onde morava. 
- Tenho de me mudar daqui" - pensou.
Esperou a madrugada chegar, lançou-se por caminhos empoeirados até atingir a floresta. Escalou rochedos, cruzou bosques e, finalmente, chegou às margens do rio largo e caudaloso.
 - Que imensidão de águas! A outra margem parece tão convidativa... Se eu soubesse nadar!
Subiu um longo caminho pela margem, desceu novamente, e olhou para trás. Aquele rio certamente não teria medo de escorpião. A travessia era impossível. 
Não vai dar. Tenho de reconsiderar minha decisão! lamentou.
Estava quase a desistir quando viu uma rã sobre a relva, ao pé do rio. Os olhos do escorpião brilharam:
- Ora... parece que encontrei a solução!" - pensou. 
- Olá, rãzinha! Diz-me uma coisa: és capaz de atravessar este rio?
- Sim, já fiz essa travessia muitas vezes até a outra margem. Mas porque perguntas isso? - disse a rã, desconfiada.
- Pois é... deve ser muito agradável estar do outro lado - disse - mas eu não sei nadar.
A rã de olhos arregalados pensou:
- Será que ele vai me pedir...?"
- Se eu te pedisse um favor, tu fazias? disse o escorpião mansamente. 
- Que favor? murmurou a rã.
- Bem - o tom da voz era mais brando ainda - bem, tu eras capaz de me carregar nas costas até à outra margem?
A rã hesitou:
- Como é que eu vou ter certeza de que não me vais matar? 
Ora, não tenhas medo. Evidentemente, que se te matasse, também morreria argumentou o escorpião.
- E se tu me matasses já deste lado da margem! disse a rã.
- Nesse caso eu não cruzaria o rio nem atingiria meu destino - respondeu o escorpião.
- E como que é que eu vou saber que não me vais matar quando atingirmos a outra margem? perguntou a rã.
- Ora, ora... quando chegarmos ao outro lado eu estarei tão agradecido pela tua ajuda que não te vou pagar esta gentileza com a morte.
Os argumentos do escorpião até eram lógicos. A rã pensou, pensou e decidiu aceder. O escorpião acomodou-se nas costas macias da agora companheira de viagem e começaram a travessia. A rã nadava suavemente e o escorpião quase chegou a dormitar. Perdeu-se mesmo em pensamentos e planos futuros, passando os olhos pela beleza do rio. De repente o escorpião lembrou-se que ficaria a dever um favor para a rã e empertigou-se. Reagiu, ergueu o ferrão e....
- Antes a morte que tal sorte" - pensou.
A rã sentiu uma violenta dor nas costas e viu o escorpião recolher o ferrão. Um torpor cada vez mais acentuado começava a invadir-lhe o corpo.
- Seu tolo - gritou a rã - agora vamos os dois morrer! Porque fizeste isto?
O escorpião deu um riso sarcástico e sacudiu o corpo.
- Desculpa, mas não pude evitar. Esta é a minha natureza.»

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