17 de julho de 2013

Sabius Justus

Esta não é mais do que a adaptação de uma estória antiga de um qualquer autor desconhecido...
A ter em conta!
"O rei Sabius Justus era um homem muito duro e tinha um coração de pedra. Governava o seu povo com extrema rigidez e não admitia a mínima desobediência à lei. Partia do princípio de que os seus súbditos eram livres para escolher entre o bem e o mal. Escolhido o mal, isto é, a transgressão, havia de se abater sobre o infractor toda a desgraça da pena: independentemente das circunstâncias em que o acto tivesse sido praticado.
As leis do reino eram severíssimas. O furto era punido com a perda de um dos braços. O roubo, com a de dois braços e o assassinato, com a morte do infractor, por enforcamento ou degola.
Um dia chegou às suas mãos o apelo de uma mulher que fora presa sob a acusação de ter furtado um pão. A defesa argumentava que a mulher, tendo um filho pequeno para amamentar, não poderia trabalhar, tendo praticado o furto apenas para matar a fome dele.
O rei, despachando de próprio punho, exarou o veredicto: "o furto de um pão é o mesmo que o de um milhão de moedas. Tanto num, como no outro caso, a lei foi violada. No caso, com uma agravante: a mulher tinha um filho e não lhe poderia dar o mau exemplo. E, por esse motivo agravante, mandou que lhe cortassem também a língua!".
Lendo a decisão, o capelão invocou a clemência de Deus para a mulher, mas o rei apenas respondeu recitando um antigo e surrado ditado: «dura lex sed lex».
A vida no reino continuou. O rei gostava de luxo e mandou construir nas proximidades do seu trono um soalho especial, feito com madeiras importadas altamente brilhantes e sensíveis às pisadelas dos mais desavisados. E para proteger a beleza daquele piso decretou: "é proibido pisar o soalho com sapatos. O infractor será punido com a pena de morte".
Claro que os súbditos iam até ao trono descalços.
(...) Entretanto, sucedeu que o filho mais velho do rei, estando com gripe e não podendo ficar descalço, resolveu visitar o pai sem tirar os sapatos. Um guarda prendeu-o e foi comunicar o facto ao rei.
- Alteza, prendi este rapaz que, desobedecendo ás leis reais, pisou o soalho sem tirar os sapatos.
- Execute o rapaz. «Dura lex sed lex». respondeu o rei!
O rapaz foi levado para a sala de execução. De seguida, outro guarda veio até junto do rei trazendo um dos sapatos do infractor.
- Alteza, o rapaz resistiu á prisão e deixou cair um de seus sapatos. Achei que Vossa Alteza poderia ter interesse em examinar o objecto do crime.
O rei pegou no sapato e reconheceu que se tratava do sapato de seu filho mais velho. Observou também que na sola havia uma grossa camada de veludo que não só protegeria o soalho como o deixaria muito mais reluzente e bonito.
Foi nessa altura que o rei concluiu que os fundamentos da sua norma não tinham sido violados e que o rapaz não cometera nenhuma transgressão, embora tivesse agido literalmente contra a lei. Pela primeira vez em toda a sua vida, o rei voltou atrás, chorou e mandou libertar o rapaz imediatamente.
Mas já era tarde. A pena capital já tinha sido cumprida. «Dura lex sed lex»"

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