18 de setembro de 2013

Quando as joaninhas de plástico deixam de falar

«Nas
outras ruas também vivem famílias, em cada janela aparecem pessoas. 
Ouvem-se relatos de futebol e ouvem-se músicas, ouvem-se telenovelas, 
ouvem-se gritos como os da sua casa, ouvem-se móveis a ranger, ouvem-se
pessoas a andar, ouvem-se pessoas a dançar, ouvem­-se pessoas a 
chorar, ouvem-se pessoas a pensar, ouvem-se pessoas a ser famílias, 
ouvem-se coisas a cair. 

M.,
com a sua idade de criança, passa pelas janelas, ouve os vizinhos e 
ouve as vidas todas iguais. Com os mesmos barulhos. Mas não se ouve o 
sofrimento, pois só se ouve o nosso. É uma coisa que nos pertence, só a
nós, como o cartão de cidadão, como o umbigo, como as linhas das mãos e
o modo como deformamos os sapatos ao andar. O sofrimento é um sapato 
deformado. 

M.
lembra-se da altura em que a joaninha de plástico falava. E não era só
a joaninha, mas também o urso de pelúcia e as bonecas. Algum 
cres­cimento e algumas dores vão fazendo com que os brinquedos deixem 
de falar, como há muito tempo aconteceu com os animais. M. lembra-se da
altura em que, quando adormecia, o seu urso de pelúcia crescia e 
ficava de um tamanho grotesco, difícil de caber no quarto. Era assim que
a defen­dia enquanto dormia, crescendo até ocupar o espaço todo. A 
boneca loira sentava-se junto dele e conversavam a noite toda. O urso 
tinha uma voz fininha e calma, enquanto a boneca loira tinha uma voz 
grave e ner­vosa. E um dia deixaram de falar, tal como os animais das 
histórias. 

M.
olha para as suas mãos, pequeninas, e lembra-se de quando a mãe lhe 
disse que o pai iria voltar. Ficou feliz e saltou de um lado para o 
outro até ficar cansada. A mãe olhou para ela com olhos tristes, mas 
acabou por se rir, deixando-se contagiar pela alegria. A sua irmã 
também estava feliz. Quando M. se cansou de correr e gritar, 
sentaram-se as três a ver televisão e adormeceram agarradas umas às 
outras no sofá. O pai chegou no dia seguinte de manhã, na companhia da 
mãe. Tinha os olhos cansados, mas trazia uns doces e parecia 
bem-disposto. Agarrou nas filhas, passeou-as pelo ar, abraçou-as e 
rodou com elas como se dan­çasse. M., a princípio tímida, riu de 
alegria. Uma alegria tão profunda, que custou a sair. Mas saiu, ao 
mesmo tempo que a joaninha de plástico deixava de falar. 

As
brincadeiras mudaram. Dantes, o pai estava na prisão e não par­tia 
objetos em casa, nem dava murros nas paredes, nem batia na mãe. Era no 
tempo em que os brinquedos falavam. M. tenta corrigir a sua vida, a 
família. Quando brinca com bonecos, faz com que ninguém bata em 
ninguém. Amam-se todos. Mas é difícil porque as suas mãos a levam a 
fazer coisas de que não gosta: o boneco levanta a mão, que é muito 
pesada, e agride a boneca. M. faz um esforço para corrigir isso, mas as 
mãos continuam a resistir, é a realidade a contaminar a ficção, a 
contaminar os sonhos, a contaminar a liberdade. 

O
pai chega sempre bêbado a casa, mas é meigo com as filhas. O pai 
esteve preso porque roubou. Antes drogava-se, endividava-se, tinha duas
mulheres, duas famílias. A mãe deixou de trabalhar, exigência do 
marido, para que o pudesse visitar com mais assiduidade. M. ouve isso 
de outras pessoas sem compreen­der tudo. Apenas vê chegar um homem, o 
seu pai, numa altura em que os seus brinquedos deixam de falar. O seu 
urso já não cresce desme­suradamente para a proteger enquanto dorme. A 
joaninha de plástico calou-se para sempre. Para sempre. 

M. olha para o pai e pensa: Se ele estivesse preso, não batia na mãe, pois não?
O pai pega nela ao colo e dá-lhe um beijo na cara, dá-lhe um 
cho­colate. Ela adora chocolates. Uma vez, enquanto esperava no 
cabelei­reiro, com a mãe, leram-lhe a história de um homem que se evadiu
da prisão porque queria dar um chocolate ao filho, porque nunca havia 
dado nada ao filho e não queria morrer sem lhe dar um doce. M. gos­tou 
de ouvir a história. Olha para o pai e interroga-se: Será que ele fugiu para me dar um chocolate? Mas os seus pensamentos partem-se contra o chão, juntamente com um prato. Foi o pai que o atirou contra a mãe. 

Os
dias repetem-se. A mãe leva-a à escola e vai buscá-la. M. vai às 
com­pras, à mercearia do Saraiva, leva tudo decorado na cabeça: dois 
quilos de cenouras, um frasco de maionese, um pacote de batatas fritas,
dois maços de tabaco, detergente para a loiça. Pelo caminho, para 
muitas vezes a ouvir os vizinhos, cujo barulho das suas vidas é igual 
ao baru­lho das outras vidas todas, mas sofrem todos de maneira 
diferente. M. olha para os sapatos, as solas mais gastas do lado de 
dentro do que do lado de fora, e, na sua cabeça, repete: dois quilos de
cenouras, um frasco de maionese, um pacote de batatas fritas, dois 
maços de tabaco, detergente para a loiça. 

Os dias repetem-se. O pai chega a casa a ondular, as coisas partem-se, os gritos preenchem tudo. 

Ouve-se
a noite a encher tudo de escuridão, a casa, as ruas, e a cozi­nha que 
estava tão iluminada. A música sai do rádio como se fugisse de alguma 
coisa, mas cansada, popular. Em cima da bancada da cozinha está um 
prato com chouriço e queijo. Ao lado há um saco com couves e brócolos. O
tapete do chão, de riscas azuis e roxas, tapa uma boa parte dos 
mosaicos brancos. A mãe calça uns sapatos de plástico, com as presilhas
debaixo dos calcanhares, como chinelos. Quando ele chega perto da mãe,
diz que quer um doce. M. pensa que também gostaria de comer um doce, 
especialmente de chocolate ou de canela. Mas não há doce nenhum, e é 
isso que a mãe diz enquanto lava a loiça, de costas para o marido: «Não 
há.» 

Está
tudo muito escuro, apesar de a luz fluorescente do teto da cozi­nha 
iluminar os azulejos brancos e deixar as caras das pessoas sem 
expressão, como a carne na montra de um talho. M. começa a chorar, e a 
mãe diz para ela ir lá para fora brincar com a irmã. A agressão, tal 
como o amor, é um ato íntimo, que se deve fazer num quarto fechado, 
longe de toda a gente. Agressor e vítima exigem o mesmo pudor. 

As
filhas não obedecem e ficam junto da mãe. O pai está com os olhos 
vermelhos, com o corpo a andar de um lado para o outro, parece um 
barco. 

O
pai é meigo com ela e com a irmã e nunca lhes bate. M. sente as pernas
a tremer. O pai levanta a mão, que é muito pesada, e dá um estalo na 
orelha da mãe porque não há doces em casa, nem de chocolate nem de 
canela. M. também gostaria de comer um doce e começa a chorar. A mãe 
cai sem sentidos. Cai e, dentro dela, nesse espaço que mais ninguém vê,
já caiu muitas vezes sem sentidos. Aquela é apenas mais uma vez. 

A
sua testa tem a marca de uma agressão com um jarro de vidro, mas é por
dentro que os jarros de vidro magoam mais, e os estalos nas orelhas, e
os murros, e os pontapés. Dão cabo do interior das pessoas como uma 
doença. Batem por fora, mas começam a afundar-se e a entranhar-se 
dentro das veias, nos pensamentos, nos intestinos, nos pulmões, no 
fígado. Crescem com as unhas e com os cabelos e com os ossos. Uma 
pessoa fica com metástases das agressões por todo o lado, com a alma 
escure­cida apesar da luz fluorescente da cozinha, essa luz que nos 
deixa com cara de doentes. As filhas correm a pedir ajuda e voltam com a
irmã do seu pai. A casa torna-se uma grande confusão, e a tia grita, 
os vizinhos gritam, o pai grita – então levanta a mão, que é muito 
pesada, e bate na irmã. A mãe acorda, confusa, com o olhar desfocado. 
Demora uns segundos a conseguir per­ceber onde está,
quem é. Há muita gente à volta, em todo o lado, há gritos e mais 
gritos, e há a cara das suas filhas debruçadas em cima dela. 

Fugir
é essencial, é toda a sua vida condensada num momento: fugir. Sair 
dali. Não é para sempre, nem é por agora. Não há planos, nem futuro, há
apenas uma necessidade, como ir à casa de banho, como respirar. Pega 
nas mãos das filhas. M. está de pijama, e saem a correr, a correr, a 
correr. Correm pelo meio da noite enquanto, em casa, o pai e a irmã 
dele se agridem debaixo de uma luz pouco lisonjeira, debaixo de uma 
vida desordeira. 

Refugiam-se
em casa de uma vizinha que já as ajudou mais de uma vez. M. olha à sua
volta com o estômago embrulhado. A mãe decide ligar para uma linha de 
apoio, mas dizem-lhe que precisa de apresentar queixa na polícia. 
Confusa, desliga o telefone, pega nas filhas e vai com elas para casa 
da sua mãe. 

— Para onde vamos? - pergunta M. 

— Para casa da avó. 

Erram
para um lugar demasiado óbvio. O lugar mais previsível de todos. É 
como se a vida fosse uma fuga para dentro, para o útero, para perto dos
pais. Isso corrige tudo, um recomeço, uma maneira de renas­cer. Voltar
para casa dos pais, voltar para dentro da barriga grávida, recomeçar. 
Mas este movimento é demasiado fácil para os predadores. Eles sabem 
para onde nos dirigimos, eles sabem onde é esse lugar. 

M.
não percebe isso. Mas depois de acontecer lembra-se de que, quando os 
jogadores correm, dirigem-se para a baliza, e toda a gente sabe isso. É
por esse motivo que é muito difícil marcar um golo. Os jogadores 
correm como cavalos, os músculos tensos, a latejar, os corpos suam, 
correm fazendo fintas impossíveis ao destino, criam adivinhas com os 
pés, correm como deuses imprevisíveis, correm, mas toda a gente sabe 
para onde. Talvez a baliza devesse estar em lugares diferentes. Assim 
facilitava-se a fuga em direção ao objetivo. Na nossa vida, pensamos 
como num jogo de futebol, em direção à baliza, mas a realidade poderia 
ser diferente de um jogo, pois na vida é possível inventar balizas no 
ar, ou nos lados, ou na nossa cabeça. E podemos fugir de maneiras 
diferen­tes para lugares insuspeitados, para lugares onde ninguém nos 
poderá perseguir. Mas raramente o fazemos, e a r
ealidade acaba sempre com a baliza no mesmo lugar previsivelmente 
cruel, leva-nos a correr para onde toda a gente espera, leva-nos a ser 
apanhados, leva-nos a sofrer metodicamente, como se houvesse um plano. 
M. e a irmã e a mãe fogem para casa da avó. 

A
porta mantém-se fechada. M. olha para ela e tem medo. Por vezes 
parece-lhe que a madeira respira e a porta aumenta de tamanho, dimi­nui
de tamanho. Lembra-se das outras vezes que a mãe fugiu com ela e com a
irmã, refugiando-se em casa da avó. E ele aparecia sempre, dava murros
na porta, e a casa estremecia, e todas elas choravam. Uma das vezes 
arrombou a porta. A madeira caiu morta no chão, e ele entrou e levou-as
de novo para casa. É sempre assim que acabam as suas fugas. 

M.
olha para a porta. A madeira parece respirar. A sua mãe está na 
cozinha com a avó e com a irmã mais velha. A porta estremece, a porta 
solta os seus gemidos de dor, que é o barulho de mãos fechadas a bater.
O pai está do outro lado, a gritar, furioso e com os nós dos dedos em 
san­gue. Ou talvez seja apenas a imaginação dela. M. não tem a certeza 
de nada do que se passa, está tudo distorcido, como as caras dos nossos 
sonhos. M. sente as mãos da mãe a pousarem nos seus ombros. Correm as 
três para a porta de serviço e fogem pelas traseiras do prédio. 

Enquanto
correm, há gatos a miar, há músicas que escapam das dis­cotecas, há 
carros, há certezas mortas. M. olha para um gato em cima de um muro e 
ouve-o cantar. Não um canto como o nosso, mas uns sons compridos, uma 
coisa animal que se pendura em lugares estranhos, como fazem os 
papagaios de papel. M. ouve-o enquanto corre agarrando a mão da sua 
mãe. 

Os prédios sucedem-se, uns atrás dos outros, de paredes de papel — que parece cimento e tijolo —,
prontos a serem nada. As constru­ções são cada vez mais próximas da 
ficção. M. não percebe nada disso, vê apenas prédios a precisar de 
serem novos, como os velhos que jogam à bisca nos jardins. A noite 
alonga-se, há demasiadas emoções a torna­rem o caminho mais comprido, 
cheio de pedras e buracos. 

É
tudo repetido: a agressão, a fuga, o voltar para casa. A mãe perdoa 
sempre, mas nem Deus é capaz disso: ou não haveria inferno. Enquanto se
foge há a certeza de que a fuga será definitiva, mas a vida tem 
manei­ras diferentes de ter certezas. Os dias sucedem-se, repetem-se, 
nascem, morrem. E as ervas fazem o mesmo: nascem, morrem e tornam a 
nas­cer. Se a natureza se porta assim, não há motivo para que os homens
se portem de outra maneira. 

A mãe pensa: Desta vez é para sempre. E, ao contrário das vezes ante­riores, acaba por não dizer isto alto. 

Quando
chegam a uma casa de refúgio da Santa Casa da Misericórdia, nenhuma 
delas consegue mostrar o seu sofrimento, porque ele é dema­siado grande
para lhes caber na boca e sair cá para fora. E porque é uma coisa só 
nossa, como os sapatos deformados. M. tem vontade de lhes mostrar a 
joaninha de plástico que já não fala, mas esta ficou em casa, no seu 
quarto, estendida no chão, muda como o urso de pelúcia e a boneca 
loira. M. diz que os brinquedos deixaram de falar, e uma senhora 
abraça-a, uma senhora que ela nunca viu. M. chora, mas não é de 
tristeza, é por­que não consegue explicar o que sente. Diz que as mãos 
das pessoas têm pesos diferentes, umas são mais pesadas do que as 
outras e fazem chorar. Devia haver uma balança para pesar as mãos. A 
senhora abraça-a com mais força, e os brinquedos deixaram de falar, 
repete M. A senhora diz que as pessoas falam e que não co
nseguem dizer exatamente a sua dor, mas, mesmo assim, é melhor do que 
não falar de todo. M. começa a gritar, mas não saem sons, saem 
lágrimas. Fica tonta, com vertigens, fica com o corpo cheio do barulho 
que não saiu para fora dela. 

Os meses passaram e está tudo melhor. Desta vez não voltaram, pois a mãe, agora, já não perdoa sempre.» 


Afonso Cruz
Isto não é um conto.
História de violência baseadas na vida de seis mulheres
Lisboa, Associação Link, 2012

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