17 de março de 2014

Em defesa da dimensão Humanista da Educação

A Dimensão Humanista da Educação para os Valores é um tema transversal à escola: que tipo de Homem estamos a construir? Em que sociedade ele se vai integrar? Faz sentido falar de um Homem global? Quais as nossas visões acerca do futuro?
A partilha de valores, conhecimentos, atitudes e competências para a formação integral de pessoas, nesta cultura cheia de incertezas que visa, tem, sobretudo, de responder a dois tipos de necessidades claramente distintas: as de necessidade interna do indivíduo autónomo em crescimento, e as do meio ambiente envolvente, com as suas exigências, pressões e critérios de verdade.
E qual é o termo que me permito usar: partilha. Tudo é em relação. Uma Pessoa tem de ser vista sempre na relação com as outras pessoas. Os valores são, apenas na sua universalidade.
Na escola, como na vida, o Eu só é com o Outro. Como se a unidade só fosse pela sua multiplicidade. O Homem como sujeito multidimensional, que afirma a sua autonomia, a sua responsabilidade e a sua liberdade nos Outros. Uma diversidade de valores integrada na multiplicidade do real. 
O amanhã – pessoal, espacial e temporal – como um Outro novo e desconhecido, que apenas convém a um sujeito aberto, tolerante e plurifacetado.
O futuro que desconhecemos é, necessariamente, diferente do presente. O futuro nunca aceitará o Homem do passado ou do presente. O futuro quer uma pessoa aberta ao mundo e aos Outros. O que daqui se infere é que a escola, enfrenta, todos os dias, um processo de desconstrução dos seus alunos quando deveria reconstruir. A Escola tem separado o que é único. O seu caracter multidisciplinar deve ser ultrapassado por um único saber: a formação, em partilha, de um sujeito global e uno, em que esta unidade só seja, pela sua diferença.
Apertemos a malha: falemos da sala de aula. Professor e alunos. Pessoas que partilham.
Esta é uma autêntica experiência valorativa. Uma tábua de valores completa. Um mundo de valores uno e coerente. Destaquemos a relação por excelência, e para onde todos convergem, que é experiência ética. Falemos de como é ser com eles. Estar com eles. Ser como eles.
Mas o que decidir? Quem manda nesta relação? Estarão todos os presentes, na sala de aula, ao mesmo nível?
Poderia escolher caminhos diferentes. Por opção, prefiro Emmanuel Levinas. O rosto de cada um. O olhar de cada um. Tudo é, naquele que está diante de nós. Serei sempre o responsável pelo Outro. Serei sempre responsável por todo o seu bem. O aluno, na sala de aula, é o centro da partilha pedagógica. Só há educação em altruísmo. Este aluno não é apenas mais um. É aquele de quem eu sou próximo, em partilha, em responsabilidade e em liberdade.
Esta é uma autêntica preocupação. Uma preocupação humanista em plena sala de aula. Uma preocupação ligada à problemática educativa.
O professor e o aluno devem dar o melhor de si. E quanta maior responsabilidade colocarem, nesta partilha, mais competência terão para serem com o Outro. O professor será mais responsável pelo «bem» do seu aluno. O aluno será mais responsável pelo «bem» do seu professor. 
Quanto mais cada um cuidar de si, mais pode cuidar outro. O aperfeiçoamento do aluno é o próprio aperfeiçoamento do professor. O aperfeiçoamento do professor é o próprio aperfeiçoamento do aluno. Esta é a verdadeira formação contínua: a formação integral como pessoas. 
A descoberta da dependência do Eu em relação aos Outros, alunos com necessidades educativas ou afetivas, é a verdadeira escola de valores.
Concluindo com palavras de E. Levinas, em «Totalidade e Infinito », "(…) a minha posição de eu consiste em poder responder à miséria essencial de outrem, em encontrar recursos. Outrem, que me domina na sua transcendência, é também o estrangeiro, a viúva e o órfão, em relação aos quais tenho obrigações".
Não será esta a verdadeira «Dimensão Humanista da Educação para os Valores»?

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